Dois estados, duas trajetórias parecidas e uma mesma pergunta de fundo: o que está por trás da queda nos homicídios na última década?
Homicídios consumados são o indicador mais grave de violência letal em uma sociedade. Junto com latrocínios e lesões corporais seguidas de morte, eles compõem a categoria conhecida como Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI) — adotada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública desde 2011 para permitir comparações mais robustas entre estados e municípios. No Anuário Brasileiro de Segurança Pública, esses números também integram a categoria mais ampla de Mortes Violentas Intencionais (MVI), que inclui ainda as mortes decorrentes de intervenção policial.
Cruzando os registros disponíveis no ObservaDados, é possível observar a trajetória dos homicídios em dois estados com perfis bastante distintos: Minas Gerais, segundo maior estado do país em população, e Espírito Santo, com pouco mais de quatro milhões de habitantes.
Uma queda consistente nos dois estados

Figura 1. Vítimas de homicídio consumado em MG (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) e ES
(Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social) por ano.
Os números mostram uma redução expressiva nos dois estados ao longo da última década. Em Minas Gerais, o pico recente foi em 2013, com 4.253 vítimas; em 2024, o estado registrou 2.778 — uma queda de cerca de 35%. No Espírito Santo, a trajetória é semelhante: o pico foi em 2009 (2.034 vítimas), e em 2024 o estado contabilizou 852 homicídios, queda de aproximadamente 58% no período.
Essa queda não é exclusiva de MG e ES. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 aponta uma tendência nacional de redução das mortes violentas intencionais nos últimos anos, ainda que com forte variação entre estados. Fatores apontados pela literatura incluem mudanças demográficas, alterações na dinâmica do crime organizado, políticas estaduais de redução de homicídios (como o Programa Estado Presente, no ES, e o Fica Vivo!, em MG), além do envelhecimento da população — já que homicídios atingem majoritariamente jovens.
Onde se concentram as mortes

Figura 2. Municípios mineiros com maior número absoluto de vítimas de homicídio consumado entre 2012 e 2026.
Em Minas Gerais, Belo Horizonte concentra 6.392 vítimas no período analisado, seguida por Contagem (2.442), Betim (2.089) e Ribeirão das Neves (1.554) — todas integrantes da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). A região, que reúne apenas parte da população do estado, responde por 11.336 das 46.358 vítimas registradas — cerca de um quarto do total.

Figura 3. Municípios capixabas com maior número absoluto de homicídios entre 1996 e 2024.
No Espírito Santo, o padrão de concentração é ainda mais nítido: Serra (8.719), Cariacica (6.812), Vila Velha (5.990) e Vitória (4.262) — os quatro municípios da Grande Vitória — somam mais da metade dos homicídios registrados em quase três décadas. É um lembrete de que a violência letal não se distribui homogeneamente pelo território: ela tende a se concentrar em determinadas regiões metropolitanas e municípios periféricos.
Quem são as vítimas
Os dados detalhados do Espírito Santo permitem caracterizar o perfil das vítimas. O resultado confirma um padrão já documentado em outros estudos brasileiros: 90,6% das vítimas são homens, e a idade mediana é de 27 anos — ou seja, metade das vítimas tinha menos de 27 anos no momento da morte. As faixas etárias mais atingidas são a de 18 a 24 anos (12.169 vítimas) e a de 25 a 34 anos (11.386).

Figura 4. Distribuição racial das vítimas de homicídio no ES, considerando apenas os registros com cor/raça
informada.
Quando se olha para os registros com cor informada (cerca de 43% do total — o restante aparece como “não informado”, o que é em si um problema de qualidade dos dados), o desequilíbrio racial é claro: 83% das vítimas são pretas ou pardas. Esse padrão é consistente com o que o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 mostra em escala nacional, onde 79% das vítimas de mortes violentas intencionais em 2024 eram negras.
O QUE OS DADOS NOS CONTAM E O QUE ESCONDEM
Toda estatística de criminalidade carrega, junto com seus números, um silêncio. Reconhecer esse silêncio é o primeiro passo para interpretar os dados com a sofisticação que o tema exige. No ObservaDados, parte do esforço está justamente em oferecer dados detalhados em formato aberto e padronizado — permitindo que pesquisadores, jornalistas e a sociedade em geral possam não apenas consultar os números, mas também questioná-los e usar o que encontram para fazer perguntas melhores sobre a segurança pública no Brasil.
Reunidos no ObservaDados ao lado de informações de outros quatro estados, os dados de Minas Gerais e Espírito Santo abrem caminho para análises comparativas e regionais. Compreender as semelhanças e diferenças entre os estados é um passo essencial para enxergar a violência letal no Brasil para além das fronteiras administrativas.